16 de Outubro - Dia Mundial da Anestesia

Medicina Aeroespacial

Medicina Aeroespacial

Por Dra. Luciana Cavalcanti Lima

A tripulação de cabine de um avião solicita imediatamente pelo sistema de som a presença de um médico para atender um passageiro. Voce já passou por isso? O que fazer após se identificar como médico?

Fatores ambientais e fisiológicos a bordo podem ser a causa da emergência médica, podem agravar uma condição médica pré-existente ou afetar o tratamento de uma condição médica.

Esses fatores incluem alterações na cabine: baixa pressão atmosférica; baixa pressão parcial de gases (principalmente oxigênio); baixa umidade (geralmente cerca de 10% a 20%); e limitações de movimento e espaço. A altitude da cabine de aeronaves comerciais é geralmente entre 5.000 e 7.000 pés (1.500 – 2.100 m). Nessa altitude, a pressão atmosférica diminui, fazendo com que o gás dentro da cavidade corporal se expanda. A expansão deste “gás aprisionado” pode causar dor de ouvido (ar no ouvido médio), dor facial (ar nos seios paranasais), dor abdominal e distensão (ar no lúmen intestinal). Quando um passageiro desenvolve pneumotórax, a diminuição da pressão atmosférica na cabine resultará na expansão do ar na cavidade pleural e piora do pneumotórax. Como resultado da pressão atmosférica da cabine mais baixa (lei das pressões parciais de Dalton), a pressão parcial do oxigênio na cabine é reduzida. Os passageiros com hipóxia pré-existente serão menos tolerantes a este ambiente. A baixa umidade da cabine causa ressecamento da mucosa, exacerbando condições pré-existentes, como olhos secos. Também pode exacerbar doenças reativas das vias aéreas. Até 3.048 metros (10.000 pés), as adaptações em organismos de indivíduos saudáveis são consideradas seguras.
Baseado em um artigo de revisão que analisou chamadas de emergência médica a bordo entre 2008 e 2010, as principais queixas dos passageiros são: síncope ou pré-síncope; sintomas respiratórios; náuseas ou vômitos; sintomas cardíacos; convulsões; e dor abdominal. Casos que envolvem morte a bordo são raros, mas ainda assim, geram um grande impacto.
Algumas sociedades médicas fazem recomendações sobre primeiros socorros, kits médicos de emergência e de precaução universal a serem transportados a bordo de aeronaves comerciais. Muitas das companhias aéreas também carregam desfibriladores externos automatizados a bordo. As diretrizes recomendam que o kit médico seja utilizado apenas quando um médico estiver disponível para prestar ajuda e tratamento.
Da mesma forma, a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), determina os princípios e as técnicas exigidas na navegação aérea, com o objetivo de garantir um transporte seguro para passageiros e tripulantes. Entre as recomendações expressas por esta organização, regulamentadas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e fiscalizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), está a obrigação das aeronaves comerciais de contar com pelo menos um conjunto médico (kit) para atendimento de emergência a bordo. Entre os itens que devem constar em cada kit médico, estão: equipamentos, insumos e medicamentos usados para uso analgésico, antipirético e antissepsia/curativo, assim como alguns empregados em urgências/emergências de problemas alérgicos, cardiovasculares, de ouvido/nariz/garganta, dermatológicos, endocrinológicos, gastrointestinais, ginecológicos, neurológicos/psiquiátricos, obstétricos, oftalmológicos, respiratórios e urológicos.
Com a percepção desses desafios e dificuldades, o Conselho Federal de Medicina (CFM) elaborou a cartilha Medicina aeroespacial: orientações gerais para médicos a bordo, contando com o suporte de especialistas que se dedicam à análise desse tema. O texto introduz o profissional nos inúmeros aspectos envolvidos em urgências e emergências médicas em aviões comerciais, considerando-se as adaptações exigidas do organismo humano em ambiente hipobárico, e apresenta os equipamentos e insumos médicos disponíveis a bordo das aeronaves.
Quando um passageiro médico atende a uma chamada em vôo para obter assistência em uma emergência médica, ele deve solicitar o kit médico da aeronave para avaliar os instrumentos e medicamentos disponíveis, e também realizar um exame físico adequado no passageiro que está doente. O médico então estará ciente do que está disponível para uso no tratamento da condição médica do passageiro.
Em voos internacionais, questões legais podem ser apresentadas em termos profissionais, embora a aeronave esteja sujeita às leis do país onde foi registrada. De qualquer modo, registre-se que alguns enaltecem o trabalho do médico como exemplo de ação voluntária, nos moldes do bom samaritano. É o caso dos Estados Unidos e do Brasil.
A decisão de desviar um vôo é do piloto avião. O papel do médico é auxiliar e aconselhar o piloto. Uma revisão mostrou que 7,3% das emergências médicas a bordo exigiam desvio de vôo. As seguintes situações exigiriam uma recomendação para desvio de vôo: (a) requer tratamento imediato ou urgente (infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca aguda, angústia respiratória; (b) requer ressuscitação cardiopulmonar contínua e suporte; (c) requer tratamento contínuo para manter a pressão arterial (hipotensão ou hipertensão grave), especialmente se for de manejo difícil ou se houver perda de volume sanguíneo, causando hipotensão moderada a grave; (d) inconsciência; e (e) uma emergência obstétrica.

A comunicação com a equipe de solo geralmente é feita através do piloto ou co-piloto. Para facilitar a comunicação e evitar confusão na transmissão das informações, é aconselhável anotar as informações a serem transmitidas à tripulação de terra e entregá-las ao piloto. Seria útil transmitir as seguintes informações à equipe de terra se um desvio de vôo for decidido: (a) idade e sexo; (b) impressão clínica e diagnóstico; (c) tipos de tratamento de emergência ou urgente necessários; (d) nível de consciência, frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória, temperatura corporal (quando apropriado), particularmente as tendências desses parâmetros; (e) descrição das lesões, se presentes; e (f) motivo (s) para recomendar um desvio de voo, se necessário.

Em resumo, em caso de emergência a bordo, o médico deve avaliar sua própria competência antes de prosseguir com o atendimento. Uma vez que o médico se apresenta, o dever de cuidado é devido. Em todos os momentos, o médico deve se comunicar abertamente e colaborar com o piloto e a tripulação, obter o consentimento do paciente para qualquer tratamento e manter notas médicas por escrito. O papel do médico é sempre auxiliar e apoiar o piloto e a tripulação. A decisão final para o desvio do vôo é feita pelo piloto. É importante saber as principais informações clínicas para comunicar ao piloto e à equipe em terra.
Com a publicação da Resolução CFM No. 2.221/18, o CFM criou a área de Atuação em Medicina Aeroespacial. Conforme a resolução, Medicina Aeroespacial ainda não é considerada uma área de atuação médica. Essa resolução aponta ainda os requisitos para a Certificação em Medicina Aeroespacial, como ter realizado Residência Médica e possuir Título de Especialista da Associação Médica Brasileira em Clínica Médica, Medicina Intensiva, Medicina de Emergência, Cirurgia Geral, Pediatria e Anestesiologia, sendo portanto, a medicina aeroespacial área de atuação da Anestesiologia. A Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM) na sessão plenária de 19 de fevereiro de 2019 aprovou a matriz de competências aos programas de Residência Médica na Área de Atuação em Medicina Aeroespacial no Brasil e definiu que os programas de Residência Médica na Área de Atuação em Medicina Aeroespacial terão duração de dois anos e obrigatoriedade da aplicação da matriz de Competências.

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